Concepção, Gestação, Parto e Educação Conscientes

Este é um espaço para mulheres e homens, mães e pais, bebês e suas famílias.
É um espaço para os que gostariam de mudar o mundo e sabem que para isso precisamos mudar a nós mesmos.
É um espaço de acolhimento individual e coletivo.
É um espaço de cura sutil a partir de novas idéias, de troca de experiências, de contemplação e de ação.

Contato: (32) 8854-9371

carolina@gerando.com.br

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Famílias de um Novo Tempo

Amigos,
A edição de novembro da nova revista Simplesmente, da Ediouro, traz um texto de Daniel Becker sobre as questões mais importantes para a saúde das crianças, hoje em dia. Vale a leitura e a reflexão.






Nossos filhos são meninos e meninas do século XXI. Tudo está em transformação. Está na hora de sermos pais e mães deste século também; de prestar atenção ao que é realmente importante para nossas crianças, para seu presente e seu futuro. Afinal, somos modernos ou não?

Então, pense menos no chão frio e no vento encanado. O país com menor mortalidade infantil no mundo é a Islândia – Iceland, terra do gelo. Você mora no Rio, não tem sequer o direito de usar a expressão “que frio”. Então: pé no chão gelado, sim, geléia de mocotó não. O que faz mal para as crianças hoje? Comida industrializada: gordura ruim, sal em excesso, aditivos, conservantes e especialmente o açúcar – que vicia como qualquer droga. A lista é das boas: obesidade, diabetes, hipertensão, câncer, infarto. No pacote de biscoito que você tem em casa, o veneno está disfarçado em 4 ou 5 nomes diferentes: xarope de milho ou frutose, glicose, maltodextrina, açúcar invertido... confira. No copinho de mate, no refrigerante, e pasme – no suco “natural”, tem duas colheres de sopa do danado, além de benzenos, que causam hiperatividade e câncer. Não deixe a indústria escolher os alimentos do seu filho – a prioridade dela não é a saúde. Alimente-o você, com comida natural: carboidratos complexos, frutas, legumes, boas proteínas e bons óleos vegetais. Se possível, use orgânicos: estão cada vez mais disponíveis e baratos.

Sem radicalismos: não precisamos suprimir o prazer de um docinho eventual na vida de uma criança.... mas farinhas açucaradas e biscoitos - sem nenhum valor nutritivo, e que fazem mal - no dia a dia de um bebê, para quê?

Compre menos Baby Einsteins e Galinhas, ofereça mais presença, afeto, atenção – o quanto você puder. Esqueça tanta natação para bebês, agende menos aulas de ioga, culinária e inglês, e deixe que brinquem mais sozinhas – vão ser mais criativas, inteligentes e seguras. Cuide de prevenir os acidentes – informe-se, revise a sua casa; e no carro, criança nunca fora da cadeirinha. Nunca. E, se puder, evite a creche antes de um ano de idade.

É perfeitamente possível que nossos filhos vivam até os 120 anos. Mas para isso, eles tem que aprender a se cuidar e a cuidar da sociedade e do planeta onde vivem. E é nossa tarefa ensiná-los as dimensões individual e coletiva da saúde. De novo: eles e elas são crianças do século XXI: estão seriamente ameaçadas de sofrer problemas graves devidos à crise ambiental.

A boa notícia: cuidar de si e do coletivo caminham juntos. Tudo que faz bem à saúde faz bem à natureza, e vice versa. Comer bem; fazer exercícios - de preferência na natureza (ajude-o a gostar de esportes); usar a bicicleta e a bola. Menos shopping, menos roupas e marcas (calma, cuidar do ambiente também gera emprego), mais praça e floresta, mais convívio com amigos e família. Reciclar o lixo junto com eles. Desligar a TV e o computador ajuda a reduzir o consumismo e a comer melhor. Aí eles vão passar mais tempo fora de casa, e você vai passar a exigir que o espaço público seja melhor cuidado, que tenhamos mais praças e árvores, menos carros e melhor transporte coletivo, praias limpas (saneamento para todos)... ciclos virtuosos.

Nossos filhos e filhas terão que construir seu próprio mundo remendando nossos muitos erros. Podemos prepará-los melhor para essa difícil tarefa. Expô-los à diversidade em todos os sentidos, ajudá-los a entender que a desigualdade e a injustiça fazem mal a todos, e que cuidar da natureza e do próximo é fundamental para o seu futuro.

A gente só cuida do que ama; só ama o que experimenta. Se nossas crianças precisam da natureza para sua saúde, também a natureza precisa da presença delas para que a amem, preservem e defendam.

Então: para que seus filhos e o mundo onde eles viverão sejam saudáveis, desligue a TV e corra com eles para aquela cachoeira geladinha. E deixe o tablet em casa.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Minha causa - Você tem uma causa?

Texto de Recardo Jones publicado no Face Book - Vale leitura

Minha tese, há muitos anos expressa, é de que a humanização do nascimento precisa “vazar” dos espaços conceituais que a contém. Necessitamos falar para outras plateias e públicos. Temos que expandir os horizontes do nosso discurso, oferecen
do “molho de espaguete pedaçudo” para os consumidores que ainda não se deram conta da existência dessa iguaria.

Tive uma experiência interessante em 2012: fui convidado a falar no CISQ – Congresso Internacional de Saúde Quântica, onde os palestrantes eram da área da física quântica (Dr. Amit Goswami - What the F* - estava lá), psicologia, fitoterapia, aromaterapia, homeopatia, entre outras áreas da saúde suplementar. Nesse congresso falei de partos num contexto mais abrangente, numa palestra chamada “Colapsos”, onde apresento uma visão ecológica do nascimento, mostrando a importância de tratarmos da questão em conjunto, com toda a sociedade, pois o extermínio da habilidade de atender o nascimento é seguida da natural extinção da forma humana de parir. Depois disso, o próprio gestar feminino se tornará uma exceção, fazendo com que o último laço que mantemos com a nossa espécie se perca. Será o surgimento do “Homo sapiens technologicus”, mas nada nos garante que ele será melhor do que a espécie que vem evoluindo nos últimos 5 milhões de anos.

A resposta do público foi muito interessante. Pessoas que nunca haviam presenciado partos humanizados, ou escutado nossos pontos de vista, ficaram encantadas com essas ideias. Fui procurado por vários profissionais, de diferentes áreas, para conversar sobre o movimento de humanização do nascimento. Havia uma viva curiosidade sobre um tema ao mesmo tempo fascinante e desconhecido do público em geral. Percebi que existe um lapso, um espaço gigantesco de desinformação sobre o nascimento. Grande parte dessas pessoas avaliam o nascimento pela mídia televisiva, pelas imagens mundanas de gritarias, xingamentos, dor, isolamento e sofrimento. Sobre essa terra fértil em informações distorcidas é que se aplica a semente da cesariana dignificadora, limpa, esterilizada, pura e tecnológica.

Costumo brincar que a sociedade (e não somente os médicos, que são apenas os porta-vozes de valores culturais) nos apresenta duas opções: A e C. A primeira é um parto violento, com elementos de objetualização e coisificação do corpo feminino, container inconfiável de um produto social – o bebê. Nessa opção usamos técnicas e artifícios há muito condenados pela boa prática médica, comprovadamente inúteis e até perigosos quando usados de rotina: episiotomias, kristelleres, enemas, tricotomias, jejum forçado e isolamento. Aí teremos os partos de “novela”, sempre violentos, sofridos, dramáticos e agressivos.

A opção “C” é a cesariana, onde a data e a hora são escolhidas, assim como a conjunção astral, o local e a conveniência de todos, principalmente da equipe médica. Nessa opção não haverá gritos, impaciência, demoras, espera, angústia, medos e nem tampouco os rituais milenarmente conhecidos, como esperar as contrações ou a ruptura da bolsa, ligar para o profissional, ir para o hospital, aguardar a dilatação, etc. Não, nada disso se faz necessário. Ultrapassamos todos os rituais, todos os preparativos, toda a formatação psíquica milenarmente construída e retiramos um bebê que dormitava no claustro materno sem qualquer notificação de “aviso prévio”. A praticidade levada às últimas consequências. Um dos principais problemas é que a ritualização de nossas ações é uma das marcas mais importantes e essenciais da cultura. Aliás, não há cultura sem rituais, pois que eles desempenham um papel fundamental no desenvolvimento humano. Eles “mediam processos psicossociais reestabelecendo a coesão do grupo através da resolução de conflitos, mantendo a continuidade de grupo diante das perdas e adversidades e modificando o comportamento individual e grupal para criar coesão e harmonia” (Robbie Davis-Floyd & Charles Laughlin – The Power of Ritual, a ser lançado em breve).

Entretanto, continuamos a ver sonegada a opção “B”. Ela se esconde entre os gritos que nos vendem como inevitáveis no parto “normal” e as luzes ofuscantes que nos dizem serem imprescindíveis na cesariana. A opção “B” é aquela em que os valores da tecnologia não são desprezados, mas que se encontram sob o domínio do bom senso; cuja utilização só se faz quando os riscos inerentes de qualquer intervenção são menores do que as patologias encontradas no processo. Na opção “B”, temos os partos humanizados, que se sustentam numa tríade conceitual: o protagonismo restituído à mulher, a visão integrativa bio-psico-social-espiritual do evento e a vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências. A opção “B”, síntese das teses digladiantes, continua a ser vista como um luxo, uma fantasia ou uma impossibilidade. Entretanto, essa opção é a única que nos oferece uma esperança de congregar o melhor de dois mundos: de um lado o respeito à nossa linhagem mamífera e aos processos psicológicos e sociais que construíram a humanidade como ela é, e do outro a tecnologia como ferramenta essencial para tratar dos casos que se afastam da trilha da fisiologia e se aproximam do caminho tortuoso da patologia.

A supressão dos rituais em nossa sociedade pós-moderna tem como consequência possível – ou provável – a desestabilização dos valores sociais que a sustentavam. Destruir os rituais e processos psicológicos e sociais adaptativos criados para o nascimento de uma criança pode enfraquecer as estruturas de segurança elaboradas para o fortalecimento da relação amorosa entre a mãe e seu bebê altricial. Se nós sabemos que a estrutura psicológica de uma criança se assenta sobre o afeto recebido, na configuração edipiana primordial, como negligenciar estas questões no nascimento, onde tais elementos aparecem aos nossos olhos de forma crua, nítida e fulgurante? Colocar entraves nessa etapa da formação do psiquismo pode ter efeitos desastrosos, mesmo que eles se produzam de forma lenta, dissimulada e insidiosa.

Que tipo de sociedade teremos quando nenhum bebê for trazido ao mundo pelo esforço de sua mãe? Que humanidade será esta em que nenhuma dor for sentida, onde anestesiaremos qualquer dissabor, onde nenhuma obra humana será regada pelo suor e pelas lágrimas de quem a produziu?

Humanizar o nascimento pode ser, para além das questões médicas e psicológicas, uma tentativa de salvar a humanidade de sua lenta desintegração...

Beijos
Ric

terça-feira, 16 de outubro de 2012

LAS MUJERES DE MI CASA, SANACION DE NUESTRO LINAJE FEMENINO



“La salud de la mujer es el terreno sobre el que crece toda la humanidad. Mejorar la salud de una mujer fertiliza y aprovisiona el terreno para todos, hombres, mujeres, niños, animales, plantas y el propio planeta. El vínculo madre- hija, en toda su belleza, dolor y complejidad, forma el cimiento mismo del estado de salud de una mujer. Es
ta relación primordial deja su huella en todas y cada una de nuestras células para toda la vida”

Las mujeres, como los hombres, nos creamos en el útero de nuestra madre. Bebemos sus emociones, sentimos todo aquello que acontece en su cuerpo, mente y espíritu. Es nuestro universo durante nueve lunas y constituye nuestra esencial referencia de la vida humana. En el caso de las mujeres, nuestros úteros son creados en el útero de nuestra madre y en él se imprimirán sus emociones básicas acerca de la feminidad. Así, en su útero, se albergan también aquellas de nuestra abuela y, si seguimos esta espiral, caeremos en la
cuenta de que en este útero de creación y recreación, nuestro Templo Sagrado (útero), está construido sobre los pilares de todas las mujeres de nuestro linaje matrilineal.

El legado de todas estas mujeres hasta nosotras (o hasta nuestras hijas) está impreso en nuestro cuerpo, en concreto en nuestros genitales, nuestros órganos sexuales, nuestros senos y nuestro abdomen. Tener conciencia de esto nos ayuda a entender el porqué de tantos dolores “inexplicables”, de tanta ira contenida y de tantas lágrimas sordas anudadas en nuestra garganta.
Las mujeres de nuestra casa sufrieron miles de abusos, desde la imagen de pecadora que tuvieron que aceptar “gracias a” la Iglesia Católica hasta la reclusión “recomendada” en los fogones. Nuestras ancestras fueron niñas, fueron mujeres, fueron hijas, fueron madres como hoy lo somos nosotras. Sus miedos y sus contentos eran similares a los nuestros. Ellas tuvieron sus sueños cumplidos y sus sueños frustrados. Fueron algo más que cuidadoras, aunque ahora apenas lo recordemos. Tuvieron inquietudes y necesidades de brillar como las que hoy sólo confesamos ante el espejo o una mano amiga.

Leyendo el libro de Madres e Hijas de la Dra. Northrup pude poner palabras a lo que tantas veces había sentido hacía mi madre y hacia mi abuela. Esa necesidad de verlas como mujeres, sin el lazo específico de la sangre familiar sino con el lazo universal que nos une a las mujeres en manada. Llorando encontré que en el seno de mi madre residía una mujer llena de poder. Una mujer a la que podía admirar. El reflejo de la Diosa, que tantas veces ilustré con dibujos prestados, estaba ahí y era real. Todos estos años la buscaba y hasta que no bajé la espada del reproche y abracé nuestras sombras no pude ver el verdadero rostro de la mujer en la que me crié y acuné.

Mi madre también es hija, como lo es mi abuela y todas mis ancestras. Todas tenemos en común nuestra Fuente de Origen y sólo cuando pude llegar hasta ella entendí los misterios más inciertos y oscuros de mi. Comprendí que muchos no eran míos, supe que tantos otros no eran de mi madre y así fui deshilando la manta de los recuerdos, hasta llegar a Ellas. Las mujeres del pasado se manifiestan en nosotras a través de los pálpitos de nuestro útero.

Esta Sagrada Vasija contiene las aguas de todas las emociones, suyas y nuestras. Hemos de sentirla sin miedo para poder elegir qué es lo que queremos quedarnos y qué queremos desechar. Ellas nos acompañan desde la luz si así se lo pedimos. Simplemente hemos de nombrarlas con solemnidad, con el corazón y los brazos abiertos pidiendo su presencia y ayuda. Reconociendo el linaje de sangre lunar. Os invito a invocarlas. Así lo hago yo desde las profundidades de mi Ser:
En este caminar soy Erika, hija de Ana Rosa, hija de Lucila, hija de Eleuteria, hija de Pascuala, hija y nieta de las mujeres valientes que me precedieron. A vosotras, abuelas, os invoco desde el Amor, buscando la Sabiduría que reside en vuestro legado.

Con estas palabras reconozco su labor aún perenne en esta Tierra, pues ellas viven en mi sangre. Porque decido honrarlas, las nombro. Porque decido liberarme de aquello que no quiero, las nombro. Ellas son la fuerza que impulsa cada una de mis acciones. Ellas son la Savia de mi cuerpo.
De todas y cada una, una sonrisa y cientos de lágrimas recorriendo mi cara. De todas y cada una, el regazo acogedor. De todas y cada una de las mujeres de mi casa llevo la luz y la sombra. Son cientos y a todas ellas muestro mi veneración, porque del linaje de mis mujeres vine a este cuerpo, a esta familia en concreto. Como hija y nieta de tantas, decido caminar hacia las profundidades de sus úteros para encontrar el origen de la angustia y ponerle fin.

Siento que no estamos completas hasta el día en que tomamos aire y nos aventuramos a bucear en las profundidades de nuestro linaje femenino. El momento en el que nos reconocemos únicas es el momento en el que honramos aquello de lo que formamos parte. Sólo cuando pude sentirme cómoda y reconfortada en los brazos de mi madre, pude dar el paso hacia mi propio universo. Hasta entonces había sido una niña perdida, buscando la aprobación de una mujer que no sabía si amar u odiar. Fuera como fuera nunca tuve elección, sabía que hiciera lo que hiciera, siempre la amaría. Pese a todo lo que me dolía reconocerlo, era cierto. Mi universo fue esa mujer y como nuestra Madre Tierra, por mucho que trates de ignorarla ella siempre te sostiene. Quizás no es como esperas, pero Ella es el mundo que necesitas para aprender lo que has de aprender. Cuando comienzas a amar tus tifones, cuando entiendes tus cataratas, llegas a encontrarla hermosa. La miras y te reconoces en ella. Entonces sabes que sois Una, tal y como fuisteis hace años.

Hemos de aventurarnos a recorrer este laberinto mágico que nos conduce a la Fuente. Nuestro primer pasadizo es nuestro cuerpo y de ahí se abren las puertas hacia las mujeres de nuestra casa. Pasamos a través de nuestro útero al útero materno y de allí al útero de nuestras ancestras. De una a otra tomamos conciencia de quiénes somos en realidad. Cada una descubrimos nuestros misterios y os aseguro, hermanas, que todos son bellos, sea cual sea su forma.
Para avanzar, no sólo hemos de comprender, sino también honrar nuestro origen. Gracias a Ellas palpitamos. Sólo Nosotras podemos elegir cómo.

Erika Irusta Rodríguez
Mujer, hija, doula, pedagoga especializada en energía femenina y sanación de Lo Sagrado Femenino





quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Cesariana, parto normal, parto natural: Polêmica e oportunidade


Artigo publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos 

"Realmente é triste saber que muitas de nós vivem este momento sob uma atmosfera de medo e apreensão, aterrorizadas por suas próprias crenças ou por uma equipe médica insensível às sutilizas psicológicas e culturais que envolvem as famílias. Os relatos que estamos tendo acesso são de equipes que no mínimo tentam enquadrar um evento fisiológico, único por excelência e por isso também psicológico e cultural, em uma lógica mecânica “do quanto mais rápido melhor”. Acelerando o processo do parto com o uso de hormônios e cortes na vagina, ou de cesarianas feitas antes da mãe entrar em trabalho de parto sem informar estas famílias dos possíveis riscos desse tipo de procedimentos. Muitas equipes abusam do seu lugar de saber profissional e da fragilidade das famílias, para comandar os processos de acordo com seus desejos e interesses nem sempre muito nobres", relata Carolina Duarte, psicóloga e educadora peri-natal em artigo que nos foi enviado e publicamos a seguir.
Eis o artigo.
Durante os últimos meses muitas mulheres brasileiras foram às ruas protestar pelo direito de escolher a maneira como queriam parir seus filhos. Mais especificamente estas mulheres que foram às ruas protestavam pelo direito de parir seus filhos de forma respeitosa e cuidadosa, denunciando aos desavisados do Brasil a violência a que são expostas a grande maioria das mulheres que dão à luz em hospitais, tanto particulares como públicos. Violência de tal forma instituída e legitimada pela área médica e pelo senso comum que muitos não se dão conta e aceitam seu destino nutrindo algum tipo de agradecimento por não ter acontecido algo pior.
O evento do parto/nascimento (parto vivido pela mãe, nascimento vivido pelo bebê) vem sendo visto ao longo dos séculos de muitas maneiras em diferentes culturas, mas em nenhuma passa despercebido. Em nossa cultura, a gestação e o parto/nascimento são vistos como eventos exclusivamente médicos. Parte-se do princípio de que tudo deve ser controlado, medido, estimulado e corrigido, para que nada saia errado. É como se o certo fosse algo dar errado e colocamos então nosso corpo, nossa vida, nossa história, nossa família, sob a responsabilidade de especialistas de todas as ordens. Porém uma mulher grávida e um bebê em formação, na esmagadora maioria das vezes, não estão doentes, pelo contrário, estão no auge da saúde física. Gestação não é, em si, uma doença. Gestação é saúde. Da mesma forma, parto não é sofrimento, parto é milagre, é início. Uma pessoa que não existia, passa a existir. Dá-se o encontro. Trata-se do belo momento da chegada de um novo ser, mesmo quando a gestação é de risco e as intervenções médicas se fazem necessárias.
Realmente é triste saber que muitas de nós vivem este momento sob uma atmosfera de medo e apreensão, aterrorizadas por suas próprias crenças ou por uma equipe médica insensível às sutilizas psicológicas e culturais que envolvem as famílias. Os relatos que estamos tendo acesso são de equipes que no mínimo tentam enquadrar um evento fisiológico, único por excelência e por isso também psicológico e cultural, em uma lógica mecânica “do quanto mais rápido melhor”. Acelerando o processo do parto com o uso de hormônios e cortes na vagina, ou de cesarianas feitas antes da mãe entrar em trabalho de parto sem informar estas famílias dos possíveis riscos desse tipo de procedimentos. Muitas equipes abusam do seu lugar de saber profissional e da fragilidade das famílias, para comandar os processos de acordo com seus desejos e interesses nem sempre muito nobres. No máximo, os relatos nos contam de praticas explícitas de violência psicológica, física ou de negligência (também considerada uma violência): mulheres amarradas, gritando de dor e terror, sem informação, sozinhas, nuas em salas geladas, nenhuma privacidade, homens desconhecidos subindo em cima de suas barrigas para empurrar o bebê para fora. São cenas de tortura que para algumas perpetuam a sensação íntima de menos valia e incompetência, dificultando assim o início da relação mãe-bebê e causando muitas vezes danos irreversíveis. Porém, em outras mulheres vivências violentas durante a gestação e o parto/nascimento provocam revolta. É dessas mulheres que quero falar.
Apesar de eu ter denominado o sentimento destas mulheres de revolta, na prática o que vem acontecendo é um enorme movimento sutil e integrado em direção à vivência de uma cultura de paz. Este movimento de mulheres em rede deflagra uma profunda revolução interna acontecendo em diferentes contextos sociais e econômicos que acaba por questionar valores sociais ligados ao Feminismo e ao feminino. Leva a um aprofundamento vivencial do atual paradigma ecológico que começa a imperar no senso comum transformado crenças e hábitos em todo o mundo.
O Feminismo, movimento de mulheres que desde o século XIX vem questionando nossa posição social, nos colocou em situação de igualdade perante os homens. Não vou entrar aqui no mérito das mulheres ainda ganharem menos que homens mesmo ocupando cargos equivalentes ou do preconceito que, sem dúvida, ainda existe. De qualquer forma, de lá para cá conquistamos muitos direitos. Hoje podemos votar, dirigir, trabalhar, usar calça jeans. Podemos transar antes do casamento, e podemos evitar gestações. Podemos até presidir empresas e governar países. Quem diria! Porém, parece que aos poucos estamos nos dando conta dos direitos que, como mulheres, perdemos. Perdemos o direito de sermos frágeis, perdemos o direito de sermos lentas, perdemos o direito de ficarmos em casa por conta de uma menstruação mais forte respeitando nossos ciclos e oscilações emocionais. Muitas de nós se dão ao direito de perder o direito de menstruar! Perdemos o direito de cuidar com calma e dedicação de nossos filhos. E apesar de podermos escolher não engravidar, continuamos não sendo donas de nossos processos corporais, pois não podemos escolher como e onde parir. Com o feminismo não só ganhamos, mas também perdemos. Perdemos porque ao querermos e lutarmos pelos mesmos direitos dos homens, acabamos desvalorizando o que é da ordem do feminino. No fundo, ao desqualificarmos nossos valores mais essenciais, praticamos o mais cruel dos preconceitos. Lutamos contra nós mesmas exigindo que fôssemos o que não somos. Veja bem, não estou dizendo que somos intelectualmente inferiores aos homens ou que não podemos ocupar o lugar social que ocupamos hoje. Também não estou dizendo que sou contra o Feminismo. Sou muito grata às feministas, mas sinto que precisamos continuar avançando. Afirmo que devemos ter os mesmos direitos que os homens, porém jamais afirmaria que somos iguais aos homens. Somos diferentes.
Eu sou uma mulher e sou uma terapeuta. Durante minha experiência profissional venho atendendo muitas mulheres, pois trabalho com gestantes e grupo de mães e famílias com crianças. Perdi a conta das vezes que recebi em meu consultório mulheres muito bem sucedidas, lindas, bem informadas, com filhos ou sem filhos... Mulheres profundamente infelizes por não verem sentido na vida que levam. Claro, já recebi muitos homens assim também, na maioria das vezes são os mais sensíveis que se sentem perdidos neste mundo movido por valores masculino materialistas. Vivemos em uma sociedade movida pela ética da competição e da dominação, valores em essência masculinos, Patriarcais. O Feminismo que prega a igualdade entre homens e mulheres levando-nos a idealizar a sociedade Matriarcal, porém neste caso a mulher assumiria o papel dominador que hoje é ocupado pelos homens, mas os valores essenciais das interações humanas não seriam transformados. Continuaríamos a mesma lógica. Em contra partida, Humberto Maturana (2004) cunhou o termo Sociedade Matrística para designar sociedades de agricultores e coletores que viviam na Europa antes de nossa era patriarcal, onde homens e mulheres interagiam sob uma ética de cooperação não hierárquica, cultivando valores vinculados a emoções como participação, inclusão, colaboração, compreensão, acordo, respeito e cuidado mútuos.
O movimento da humanização do parto/nascimento que fez sua primeira ação em 1985, ainda é fundamentalmente luta de classes profissionais. Médicos e Enfermeiras brigando pelo mercado do parto. Mas o movimento das mulheres, usuárias dos serviços de saúde, unidas em rede pela internet, me parece o terreno fértil para que o emocionar matrístico frutifique.
Farei um pequeno resumo informal dos últimos acontecimentos. Os Conselhos de Medicina, em especial o do Rio de Janeiro, CREMERJ, vem tentando enfraquecer o movimento chamado Humanização do Parto e Nascimento. No início eles investiram contra as Casas de Parto (tidas como símbolo do parto não medicalizado) e tentaram fecha-las. De fato acabamos perdendo a Casa de Parto de Juiz de Fora, mas conseguimos manter em funcionamento as do Rio de Janeiro e Sapopemba, São Paulo. Enquanto isso, ou talvez por conta disso, as informações sobre os processos fisiológicos do parto e as denúncias de abusos médicos foram correndo. Nos articulamos, criamos ONGs, cursos de formação profissional. Nos reunimos em congressos... O movimento pelo Parto Domiciliar foi crescendo, bem como os partos fisiológicos em hospitais de todo o Brasil. O número de partos domiciliares no Rio de Janeiro cresceu 400% nos últimos dez anos. Continuam sendo em número irrisório se comparados ao número de cesarianas eletivas, mas a estatística assusta e passou a incomodar. Em 2011, Marcos Dias, obstetra carioca, consultor doMinistério da Saúde durante anos, foi processado pelo CREMERJ por se declarar a favor das Casas de Parto. No início deste ano, Jorge Kuhn, obstetra paulista, foi processado pela mesma entidade por se declarar a favor de partos domiciliares. Entendam, eles somente se declararam a favor e apontaram para evidencias científicas que endossam suas opiniões, porém fizeram isto publicamente. Após a investida contra Jorge Kuhn o movimento de mulheres ganhou uma força nova de dimensão nacional. Mulheres desconhecidas se pronunciaram, contaram suas histórias, colheram assinaturas, foram às ruas na Marcha pelo Parto em Casa e quando estavam acalmando o CREMERJ fez outra jogada. Baixou uma resolução que proibia aos médicos a realização de partos domiciliares e proibia a atuação de parteiras e doulas em ambientes hospitalares.  Aparentemente isto deveria cortar o “mal da humanização do parto” pela raiz, mas ao contrário, por afetar a todas as categorias envolvidas com este ideal, provocou a união com um novo lema amplo e inclusivo: o Direito de Escolha. Esta discussão alcança outra amplitude quando sai da esfera profissional entra no senso comum com a categoria de Direitos Humanos, podendo assim, instaurar um novo momento de cooperação entre as classes profissionais e não profissionais pelo bem das gestantes e das crianças, pelo bem das famílias e da sociedade como um todo.
Crianças que são recebidas com cuidado e famílias que são respeitadas em seus momentos especiais amam mais. Criam uma disponibilidade maior para a cooperação, para a inclusão e o acolhimento. Características que nos remetem aquela sociedade descrita por Maturana, formada por pessoas que não encaravam o mundo sentindo que precisavam se defender e por que isso não atacavam. Estas ideias podem parecer utópicas, mas basta observar crianças gestadas, nascidas e criadas sob a ética do cuidado para notar que algo de diferente acontece. Por não serem existencialmente feridas antes mesmo de terem seus corpos formados apresentam uma disponibilidade amorosa para o outro e para o mundo. Então, esta rede de mulheres e profissionais que semeia hoje a busca pelo Direito de Escolha no fundo representa o início de uma revolução silenciosa e pacífica que, ao transformar a relação mais básica da estrutura social, a relação mãe-bebê, pode chegar ao todo no espaço de poucas gerações. Assim esperamos.